Melodia, Harmonia e Ritmo (artigo escrito por Andre Matos, publicado na revista Rock Brigade # 107, Junho/1995)


O inadvertido folheador que se detiver neste título poderá associa-lo aos quesitos a serem julgados em um desfile de escolas de samba…Porém não se trata disso! Desde os primórdios do universo a música vem sendo uma constante incógnita: não se sabe quando, onde e nem por quê se deu sua existência, e o que é pior, não há tampouco definição precisa do que seja música!

O que se vê são conjeturas, suposições e pseudo-afirmações tais como: “Música é a arte de combinar os sons de maneira agradável ao ouvido”, “Música é a expressão da alma humana através de notas” e outras tentativas do gênero.

É aí que entra o nosso título: através dele vamos arriscar a traçar um paralelo histórico que nos leve a uma compreensão mais exata e científica do que seja música; deixando, assim, as questões de anatomia auditiva e expressão espiritual a cargo de profissionais nessas áreas.

Sob o prisma da civilização, ritmo talvez seja o mais ancestral dos elementos musicais. Os primeiros instrumentos de que se tem notícia remontam ao período Paleolítico e consistem no golpear de pés contra o chão e mãos sobre as coxas, assim como a percussão de varas e paus (que curiosamente permanece até hoje).

A esses se seguem os primeiros tambores – feitos de troncos de árvores ocos – e só muito mais tarde iriam aparecer as primeiras flautas e trompas, fabricadas a partir do esqueleto de animais mortos.

Nesse período, em que a fala e a linguagem ainda engatinhavam, os homens faziam da música um verdadeiro meio de comunicação, no intuito de expressar ou mesmo co-afirmar seu ambiente e sua existência. A função da música era, pois, cultural e religiosa e o curioso é que isso apenas através do ritmo. Em outras palavras, ritmo poderia se definir como “sucessão de sons em um determinado espaço de tempo” – assertiva um tanto simplória que, acrescida de dois elementos adicionais, torna-se completa. Esses elementos são comumente chamados em música de Agógica e Dinâmica. O primeiro trata da duração dos sons (e também da ausência desses, ou seja, as pausas) e o segundo da intensidade sonora. São elementos importantes não apenas do ponto de vista rítmico, mas também melódico.

Desta forma podemos já ter uma breve visão do que vem a ser melodia; tome-se os conceitos acima e some-se mais um: altura. A altura de uma nota (que muitos costumam confundir com “volume”) é, na realidade, a representação da freqüência vibratória desta nota, normalmente expressa em Hertz (vibrações por segundo), através de um nome (Lá, Si, Dó) ou uma letra (A, B, C). Assim, temos as notas musicais cada uma em sua própria freqüência, tal como estações de rádio ou mesmo as cores do arco-íris. Por exemplo, é bastante usual referir-se ao Lá 440 como uma nota padrão, que se utiliza para afinações, etc. Isto significa que a nota Lá vibra a uma velocidade de 440 vezes por segundo; já o Lá situado uma oitava acima vibrará 880 vezes e assim sucessivamente. Tudo isso para dizer que agregando-se este novo fator criamos o conceito de melodia. Daí que melodia engloba ritmo, mas a recíproca não é verdadeira.

Na História da humanidade, a forma melódica aparece depois do ritmo e em conseqüência dele. Estabelece-se então um tipo de interação entre ambos, em que instrumentos melódicos convivem com rítmicos proporcionando assim um nítido aprimoramento de toda a expressão musical. E note-se que esta prática perdurou bastante, estendendo-se do período Neolítico até meandros da civilização oriental; passando por egípcios, persas, gregos e cristãos.

A grande reviravolta se dá ao longo dos obscuros séculos da Idade Média. O que hoje conhecemos por harmonia teve sua gênese e florescimento calcados em um dos instrumentos musicais mais insólitos que conhecemos: a voz humana.

Quando a maioria da música feita no mundo ocidental era de natureza vocal e religiosa, há, sob o patrocínio da Igreja Católica, o desenvolvimento de um período de transição, mais conhecido como Polifônico (de vários sons) ou Contrapontístico. Tudo começou no século VII d.C., quando a Igreja resolveu erradicar quaisquer traços de orientalismo de seus quadros – e isto abarcou todas as artes a ela relacionadas, de arquitetura a música. No caso da música, o então papa Gregório I estipulou um tipo de canto litúrgico, em latim e homofônico, chamado Canto Gregoriano. Por ser homofônico (de sons iguais) este estilo aceitava apenas uma linha melódica por vez, cantada em uníssono por todos os executantes. Note-se que nesta época apenas os homens podiam cantar em igrejas. A mudança drástica ocorre mais tarde, quando resolve-se sobrepor duas linhas melódicas diferentes, depois três e assim por diante. A isto chamou-se polifonia ou contraponto. E o que viria a ser a harmonia?

A harmonia surgiu da observação de duas linhas melódicas que, sobrepostas, resultam em diversos acordes, ou seja, agrupamentos de notas simultâneas. Deste modo, harmonia e Contraponto passaram a conviver pacificamente, tendo seu auge em plena Renascença (provavelmente era a música que Cabral escutava quando aportou por aqui); até que o Contraponto se viu esquecido e substituído por algo chamado “melodia Acompanhada”. Atualmente também se dá nome de harmonia à ciência que estuda a inter-relação entre os acordes e sua função no contexto musical.

Não é preciso ir longe para perceber a presença destes três elementos na música contemporânea: imaginemos apenas que numa banda de rock a bateria se encarregue do ritmo, baixo e guitarra, da harmonia, vocais, da melodia e tudo se torna mais claro…E que nunca mais nos confundamos ao ouvir por acaso um julgamento de escola de samba!

*André Matos é maestro, pesquisador de música e vocalista da banda Shaaman.

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Janus Aureus is my recently-inaugurated personal blog (written in portuguese, but with some texts in english as well). Fiore Rouge is my old (but still very active - in fact, more than Janus :P) blog (I started it back in 2005). Mentalize is a fan-made website (since 2005). if you wish to contact me for any reason, visit my blog and leave a comment OR see email above (top left) - no, my name's not Andre - actually, I'm not even a guy! LOL Long story... O Janus Aureus é meu blog pessoal - escrito em português - ainda sem muito conteúdo, pois foi começado no final de dezembro de 2011. Já o Mentalize foi aberto em 2005 e está escrito em várias línguas *rs* Privilegio o uso do inglês ali porque o pessoal estrangeiro não tem muitas informações sobre o AM. Quem quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, deixe um comentário nos meus blogs ou use o email que está aí em cima à esquerda (e não, eu não sou o Andre - aliás, sou mulher!).

One thought on “Melodia, Harmonia e Ritmo (artigo escrito por Andre Matos, publicado na revista Rock Brigade # 107, Junho/1995)

  1. ANDRE says:

    ¬¬

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