Entrevista de André Hernandes à Guitar Clinic


 
 

01- Olá André, tudo bem? Muito Obrigado pela oportunidade entrevista. Inicialmente, nos comece contando como foi seu início com a música e quem são seus heróis do instrumento…

Eu que agradeço o convite! Meu início na música aconteceu meio que naturalmente porque meu pai e seus irmãos faziam rodas de choro na casa da minha avó nos fins de semana, junto com isso havia também a banda dos meus primos mais velhos, a Orquestra Azul, que inacreditavelmente tocavam covers da Mahavishnu Orchestra do John McLaughlin, isto no Brasil em mais ou menos 1978 !! Meu primo tinha uma Gibson SG de dois braços e eu ficava horas olhando pra ela, meio hipnotizado!! Então comecei com o violão mas logo veio o gosto pelo Rock´n´Roll e junto a vontade de tocar guitarra, nesta época eu tinha 11 anos e foi quando iniciei os estudos em escolas de musica próximas a minha casa. Quanto aos heróis da guitarra, são vários, porque acho que cada etapa de nossas vidas tem os seus heróis. No começo foram Angus Young, Brian May, Randy Rhoads, Eddie Van Halen entre outros, estes dois últimos são até hoje!! Depois veio o gosto pelo Blues e Jazz, então vieram Robben Ford, Scott Henderson, Pat Metheny, e claro também tive a fase Shred Guitar da segunda metade dos anos 80 e primeira dos 90 onde os heróis eram Yngwie Malmsteen, Greg Howe, Steve Vai, Joe Satriani, Vinnie Moore entre outros.

02- Quem foram seus professores de Instrumentos e de música?

Foram vários, afinal fiz cursos de harmonia, arranjo, estudei um pouco de violão erudito, choro, baixo, enfim, mas preciso destacar três mestres da guitarra que dentre outros foram os mais importantes: o guitarrista Michel Perie que foi meu primeiro grande professor, na época ele tinha recém chegado do GIT de Los Angeles e trouxe todo um material de licks, transcrições que era impossível de se conseguir no Brasil daquela época, mais ou menos em 1985, e também foi o cara que me apresentou pela primeira vez os conceitos de modos, harmonização, improvisação, etc.

Depois veio o Mozart Mello, que dispensa comentários, fiz aulas com ele por aproximadamente cinco anos, foi na época em que tive que escolher se seguiria ou não a carreira de músico e ele me influenciou de forma muito positiva na minha decisão. Não sei se ele sabe disto!! Ele é uma das pessoas mais inteligentes, carismáticas e de caráter que já conheci. Se você tiver a chance de conviver com ele perceberá o quanto ele gosta do que faz e como isto o faz feliz independente da profissão de músico proporcionar ou não uma situação financeira estável. Isto foi decisivo para que eu continuasse me dedicando a guitarra, fora que ele foi o cara diretamente responsável por eu ter adquirido o gosto por outros estilos como o jazz, blues, latin-Jazz, a música instrumental brasileira, etc.

Mais recentemente tive aulas com o Alexandre Birket, um mestre em jazz e música brasileira que atualmente mora em Santos, ele me abriu muito a cabeça com uma didática muito prática e musical adquirada com anos de gigs e jams nestas áreas.O cara realmente tem muita experiência no assunto, pra você ter uma idéia ele foi o guitarrista escolhido pelo Robertinho Silva para gravar seus discos, além de ser uma pessoa incrível !!

 

03- Você optou por não fazer faculdade de música. Qual o motivo desta decisão?

Na época em que tive que optar entre fazer a faculdade de música ou apenas continuar os estudos da guitarra, eu já lecionava, e alguns dos meus alunos, como por exemplo o Rafael, cursavam a faculdade de música e eu observava o quanto era difícil para eles conseguir tempo suficiente para estudar tudo o que eu passava a eles uma vez que a faculdade também os enchia de trabalhos, lições, provas, etc. Isto foi decisivo na minha escolha porque o que eu realmente queria era me desenvolver como instrumentista então achei melhor não dividir o meu tempo com outras atividades didáticas mesmo que sendo na área da musica. Claro que fazendo esta escolha eu deixei de lado a oportunidade de adquirir uma serie de outros conhecimentos, mas o lado bom desta escolha foi o fato dela me permitir ficar uma media de 9 horas por dia estudando a guitarra, e foi neste período que adquiri a técnica que tem sido fundamental nos trabalhos que faço até hoje, trabalhos estes que me permitem continuar vivendo fazendo o que gosto.

 04-Você participou do Angra ainda muito novo e quando a banda estava bem em seu ínicio. O que te levou a deixar a banda naquele momento? Como foi lidar com tudo isto, vendo o que a banda se tornou?

Tenho respondido esta pergunta com uma certa freqüência, ainda mais agora que voltei a tocar com André Matos. O que as pessoas precisam entender é que é perfeitamente possível viver e ser feliz tocando guitarra sem ser um astro do rock, ou metal ou seja lá o que for. Naquele momento eu estava no auge dos meus estudos com Mozart Mello descobrindo um universo novo e gigantesco de coisas para estudar e tocar na guitarra. Portanto não me cativou a idéia de me dedicar a uma banda de heavy-metal mesmo sabendo que a banda alcançaria o sucesso uma vez que era liderada pelo então recém ex-vocalista do Viper, banda que já tinha alcançado reconhecimento e sucesso na Europa e no Japão. Fora que o Angra já naqueles primeiros ensaios demonstrava ser uma banda diferenciada e de qualidade. Enfim, eu estava ali porque as pessoas me diziam que era uma grande oportunidade, não porque queria, tirando o Luis que foi quem me levou pra banda, eu tinha acabado de conhece-los, não conseguia me dedicar e vestir a camisa o tanto quanto aquele projeto precisava. Tudo isto levou a um descontentamento de ambas as partes e o mais sensato foi colocar no meu lugar alguém que quisesse se dedicar mais ou que pelo menos visse ali uma boa oportunidade profissional. A partir daí fui me dedicar aos estudos e a musica instrumental, o Kiko entrou no meu lugar, o Rafael se tornou meu aluno e sempre que dava eu aparecia nos shows, uma vez até toquei uma musica com eles em um show em Curitiba !! Claro que foi uma decisão difícil desistir de um projeto tão promissor, mas são aquelas escolhas que você só pode fazer enquanto ainda é jovem, então mandei ver !!!! 

05-Como funciona o seu lado de didata?

Dar aulas é uma das coisas que mais gosto de fazer, pra mim é como um complemento de todo o trabalho musical e artístico que desenvolvo. Faço isto há 20 anos e pretendo continuar, mesmo com as tours sempre dou um jeito de encaixar algumas aulas nos intervalos das viagens. Além do que, por um bom período da minha vida, esta foi a minha principal fonte de renda, proporcionando o sustento da minha família. Portanto, pra mim dar aulas é coisa séria, tenho uma metodologia e uma didática que venho aperfeiçoando incansavelmente ao longo destes 20 anos. Também acredito na responsabilidade desta profissão assim como a de qualquer outro tipo de educador. Infelizmente tem gente por aí despreparada dando aulas pra tirar um troco de pessoas que carecem de informação suficiente para perceber que caíram nas mãos de um aproveitador. Deveria existir um órgão para fiscalizar isto! Odeio quando o cara chega pra mim e fala "sou musico profissional, toco por aí e dou umas aulinhas só pra ganhar um troco mas acho um saco", qual é?! então deixa pra quem gosta e consequentemente sabe fazer !!

 06-Como é viver de música no Brasil?

Viver no Brasil é difícil para qualquer pessoa que exerça algum tipo de profissão ligada à arte. Aliás, tenho visto isto no mundo todo, afinal vivemos a época do imediatismo. No Brasil, ainda temos o agravante de vivermos em uma economia de terceiro mundo, gerenciada por políticos que se chamássemos de desonestos e corruptos seria muito manjado, na verdade os caras são sangue ruim mesmo. E não podemos apenas culpá-los porque a maior parte da população está mais preocupada em saber quem vai pro paredão do Big Brother do que com as notícias desanimadoras,porém reais, dos jornais nacionais que infestam a televisão no (por incrível que pareça!) horário nobre. Portanto aí vai meu conselho: viver de música deve ser única e exclusivamente por amor, e trabalhe muito e com muita competência para conseguir o mínimo de conforto para você e sua família sem precisar da "ajuda" dos nossos governantes, senão você tá frito !!  

07-Você tem seu projeto instrumental que é calcado no rock/fusion. Como você vê o mercado atual para

este estilo de música? Quais são suas influências neste segmento?

Bom , se o mercado não está bom nem para as bandas de música pop imagina para o fusion !!! Mas se você fizer música instrumental no Brasil pensando em mercado vai desanimar. Faça pela satisfação pessoal. E você acaba tendo um retorno em alunos, apoio de empresas além da admiração de meia dúzia de pessoas, vale a pena !!!Minhas influências…acho que é tudo o que ouvi e estudei ao longo destes anos. Acho um pouco pretensioso falar que minhas influências são aqueles caras que admiro, quem dera !!  

08-Como funciona o processo de composição deste trabalho?

O processo pode ser um pouco frustrante, porque os tops deste estilo são caras realmente geniais, talentosos e profundo conhecedores da guitarra. Portanto, toda vez que termino uma música chego à conclusão de que ainda está muito longe deles, mas este é o grande desafio !! Isto que me faz pular da cama todos os dias !! No resto, não é diferente de compor qualquer outro tipo de música, ou seja, vale também aquele clichê de que música é 10% inspiração e 90% transpiração. 

09- No ano de 2006, você ingressou na Banda do André Matos. Como surgiu o convite?

Foi engraçado porque algumas semanas antes de surgir o convite eu estava justamente comentando com minha esposa que a vida de músico instrumental e professor estava se tornando muito "politicamente correta" e que um pouco de barulho e diversão poderiam me cair bem !! Então um dia eu estava em casa, o Hugo me ligou contando que o André estava montando uma banda solo e que queria mais um guitarrista. Convidou-me para gravar os solos de uma demo e alguns dias depois veio o convite oficial, topei no ato!! Costumo dizer que a vida tem sido muito generosa comigo, afinal lá atrás fiz uma escolha que me deu a oportunidade de viver as mais diversas situações que um músico pode viver, porém com esta escolha abri mão de viver a experiência de estar em uma banda com os amigos viajando o mundo, e agora estou tendo a chance de viver este outro lado. Enfim, fiquei mais do que no lucro!

 10- Como tem sido esta experiência?

Divertido, porém uma grande responsabilidade. Afinal, o Andre é mundialmente reconhecido como um dos maiores representantes do estilo, pude ver isto nas viagens internacionais que já fizemos. Musicalmente, também tem sido uma grande experiência, porque apesar de nunca ter me afastado totalmente do heavy metal, já que sempre tive muitos alunos deste estilo e ter produzido e gravado para algumas bandas deles, a questão do palco realmente ficou perdida no passado !! Então precisei pesquisar e me preparar para encarar a diferença de postura e também da timbragem e mixagem no palco para estar à altura deles, que já vinham fazendo isto há muitos anos.

 11- Como é ser um guitarrista de fusion e ter que tocar Heavy Metal?

Ser um guitarrista de fusion foi uma escolha muito mais baseada no meu desejo do que por motivos profissionais, o que quero dizer é que pra viver de música precisei ser guitarrista de tudo o que você imaginar. Então voltar para o heavy metal foi apenas mais um desafio que precisei encarar nesta minha vida de músico, desafio que exigiu pesquisa e dedicação como todos os outros, a diferença é que havia muito mais prazer e diversão envolvidos, tornando assim mais fácil o trabalho !!

Tecnicamente não houve grandes problemas, apenas precisei de algum tempo para me atualizar bem e assim poder ajudar também com as composições, que consegui realizar na produção do segundo disco que está em fase de finalização. 

12- Qual equipamento você usa ao vivo e quem são seus patrocinadores?

Com Andre Matos uso apenas a distorção do meu amplicador que é um Rotstage CJ100 empurrada por um Dual Drive da Nig, aí piso em um Digidelay da digitech na hora dos solos junto com um booster de volume fornecido pelo Amp Simulator também da Nig. Minhas guitarras são todas do luthier Castelli, as que uso com a banda são feitas em mogno com braço inteiriço e escalopado da 12 pra frente. Os captadores são EMG 81 e 89 na AH-02red e Seymour Duncan Blackout, tambem ativo na AH-02Blackburst. As cordas são da marca Nig, uso bordões 0.12 e primas 0.10 para gravar e ao vivo vinha utilizando todas do jogo 0.10, porêm experimentei os bordões da 0.11 no mês passado quando estivemos em tour pelo Leste Europeu e gostei bastante, portanto devo adotá-los para os shows daqui pra frente.

Já para o fusion, apenas troco o Dual Drive pelo Shred Pro tambem da Nig e ligo-o no input do canal limpo do Rotstage, assim consigo um timbre mais fraco, limpo e definido, que é indispensável para o fraseado do jazz/fusion. Eventualmente ligo um compressor e um chorus bem leve para tocar acordes quando estou usando o som limpo.

Os meus patrocinadores e parceiros, a quem quero aproveitar a oportunidade e agradecê-los, são as cordas e pedais Nig, os amplificadores Rotstage, as guitarras Castelli e os efeitos Digitech.

13- Muito obrigado pela entrevista, por favor deixe uma mensagem aos visitantes do Guitar Clinic.

Quero agradecer a oportunidade de conversar com os leitores do Guitar Clinic, e dizer que apesar das dificuldades que encontramos em tocar guitarra no país do carnaval, não desistam, estudem e se preparem para serem grandes profissionais, pois assim é possível viver relativamente bem e se sentir realizado. Afinal, é importante acordar numa segunda-feira sabendo que você vai poder fazer o que mais gosta, ganhar o seu dinheiro honesto e depois dormir em paz.

Vai por mim !! vale a pena !!

Abraço a todos !!

 

http://www.guitar-clinic.net/noticia_detalhe.asp?idioma=1&id_sessao=1&id_noticia=1171

About Janus

Janus Aureus is my recently-inaugurated personal blog (written in portuguese, but with some texts in english as well). Fiore Rouge is my old (but still very active - in fact, more than Janus :P) blog (I started it back in 2005). Mentalize is a fan-made website (since 2005). if you wish to contact me for any reason, visit my blog and leave a comment OR see email above (top left) - no, my name's not Andre - actually, I'm not even a guy! LOL Long story... O Janus Aureus é meu blog pessoal - escrito em português - ainda sem muito conteúdo, pois foi começado no final de dezembro de 2011. Já o Mentalize foi aberto em 2005 e está escrito em várias línguas *rs* Privilegio o uso do inglês ali porque o pessoal estrangeiro não tem muitas informações sobre o AM. Quem quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, deixe um comentário nos meus blogs ou use o email que está aí em cima à esquerda (e não, eu não sou o Andre - aliás, sou mulher!).

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