Entrevista de Andre Matos ao site Rockonnection – 20.01.2010


Depois de liderar três grandes bandas brasileiras, André Matos parece ter chegado ao seu ponto mais alto com o seu segundo álbum solo Mentalize, um trabalho que marca de vez a identidade deste grande músico. Na entrevista que o cantor concedeu ao Rockconnection ele conta como foi feita a composição deste novo disco, fala sobre os 25 anos de carreira e seus planos para o futuro. Confira!

Quais foram as principais influências na hora de compor o Mentalize?
Tanto eu, quanto os outros membros da banda, procuramos não nos influenciar por nada, seja antigo, ou atual. Dessa vez, nós procuramos não ter referências para compor o material. Disso saiu uma boa mistura: tanto de coisas mais atuais, quanto mais antigas, mas tudo com uma cara muito própria, talvez até as pessoas possam reconhecer algumas influências, mas acho que na verdade a maior influência que a gente teve para esse disco foi a composição do anterior, Time To Be Free.

Como surgiu o título do álbum?
Surgiu depois de uma longa conversa com o Corciolli, que é um cara que tem uma visão muito abrangente das coisas e até pelo próprio estilo musical que ele desenvolve, ele é mais ligado nessas questões filosóficas de metafísica, então ele foi o cara que me auxiliou muito nessa história de achar um conceito para o disco, porque a primeira pergunta que ele me fez foi essa, quando eu o chamei para trabalhar comigo ele falou; “eu topo, mas me diga uma coisa, o que é que você quer desse disco?”. E eu tive que pensar nessa pergunta uma semana inteira (risos) e acho que daí surgiu essa questão do Mentalize.

Como foi o trabalho com o Corciolli?
O Corciolli é um grande produtor. Pela primeira vez, eu consegui achar uma pessoa, no Brasil, que tem as qualificações para produzir um trabalho de heavy metal, da maneira como eu enxergo. Então, acredito que a grande descoberta foi saber que existe alguém aqui no Brasil, apto a entender o processo, a ter o mesmo tipo de preocupação com os detalhes, principalmente, do ponto de vista sonoro. O Corciolli é um cara fissurado em som, ele é maníaco por sonoridade, por qualidade sonora e isso é uma coisa que a gente buscou desde o princípio.

Você tem a perspectiva de gravar algum material ao vivo?
A gente tem planos muito sérios para isso, mas que só vão ser executados quando eu tiver a garantia de que eu vou conseguir fazer uma coisa melhor do que eu fiz antes. No meu entender, só dá para fazer algo novo se for superar a gravação do Ritualive, do Shaman. Seria muito arriscado lançar algo que não tenha o mesmo padrão, e que desaponte, frustre a expectativa dos fãs. Talvez essa demora em lançar algo ao vivo seja justamente porque estamos esperando o momento certo para poder captar isso, para poder ter a certeza de que isso vai ser trabalhado da forma que a gente idealiza.

Dá para notar que em Mentalize você parece ter mudado um pouco a afinação no modo de cantar, deixando um pouco de lado os agudos constantes. Isso foi proposital?
Não! Não… (pensativo) nem sei se deixei de lado essa forma de cantar, existem musicas ali que privilegiam mais o registro agudo e acho que o mais importante nisso tudo é a melodia. Se você precisa acentuar mais uma melodia com um registro mais agudo, isso será feito.

Então, isso surge conforme a música vai pedindo?
Sempre! Eu nunca procurei fazer a linha de voz em cima de meu alcance vocal, mas sim em função do clima da música. Muitas vezes eu até transponho a música, que é composta em um tom, num tom acima, para que ela tenha uma sonoridade mais agressiva. Para mim, o grande desafio não é mostrar que eu consigo cantar agudo, mas sim, mostrar que posso variar mais, para não cansar as pessoas. Uma das grandes virtudes de um cantor é poder fazer vários tipos de voz e emocionar o ouvinte, seja com qual tipo de voz for.

Desde seus quinze anos, você sempre esteve à frente de uma banda de heavy metal. Como é agora liderar uma banda com o seu nome? O nome André Matos pesa para você?
Sim! Sempre olhei com muita responsabilidade, até com uma certa cautela porque pesa no sentido de que qualquer coisa a ser transmitida por essa banda, acaba sendo de minha responsabilidade. Não que os outros não tenham, eu quero que eles realmente tomem parte da coisa sempre. Mas, automaticamente, devido ao nome da banda ser o nome de uma pessoa que acaba sendo o porta-voz de tudo… Mas, eu tento sempre que possível integrar mais os outros nessa equipe, nesse time, até de forma que eles possam responder por mim em muitas coisas. Então, acho que muito mais do que vaidade, a palavra certa seria responsabilidade.

Como funciona o trabalho com a Azul Music, em comparação ao seu contrato anterior?
Está sendo diferente.  Eu estava bem satisfeito na Universal, mas a Azul Music veio com a proposta de um plano de marketing muito eficiente, e que tem como principal objetivo aproximar a gravadora, o artista e os fãs, tanto que bem antes do disco ser lançado, eles vieram com essa estratégia da pré-venda a um preço muito bom. Se você quer combater a pirataria, tem que ir na raiz da coisa, então a primeira coisa é baixar o preço – vamos tornar o material disponível ao público. A segunda coisa é o canal de comunicação que você vai usar com os fãs. Você vai ter mais contato com a imprensa, vai realizar seções de autógrafos, ter uma comunicação via web, muito mais eficiente, e tudo isso a Azul Music se propôs a fazer.

Sobre o Eloy, por ele ser o membro mais novo, o que realmente tem do Eloy no som do André Matos?
Vitalidade, né! Quando ele entrou na banda foi justamente esse o questionamento, primeiro do ponto de vista do relacionamento, mas depois a gente percebeu o seguinte: foi a melhor coisa que a gente poderia ter feito, porque os dois lados se complementam. Por um lado nós somos mais experientes e vamos passar muito dessa experiência para ele, passar vivência, fazer com que ele não se torne um músico deslumbrado. Mas, por outro lado, ele é um cara que realmente trouxe sangue novo, velocidade, e se é que nós já estávamos ficando um pouco acomodados, o Eloy despertou todo mundo, tivemos que correr atrás dele, é mais ou menos como você ter um time de futebol, com os jogadores mais experientes, de repente você coloca no time aquele cara que subiu das categorias de base, que corre pra caramba e você vai ter que correr junto. Então, foi muito bom para todo mundo!

Você enxerga nele um pouco do que foi a sua carreira?
São momentos diferentes! Eu quando comecei não tive a oportunidade de tocar com músicos mais velhos e mais experientes. Todos eram da mesma faixa etária, então, todo mundo estava descobrindo as coisas juntos. Já o Eloy, talvez tenha tido essa oportunidade, esse “presente” de poder trocar experiências num nível diferente com os companheiros de banda. Espero, realmente, que ele saiba desfrutar disso, saiba aproveitar isso para a vida dele, porque, de fato a única coisa que eu desejo é que o Eloy seja um grande músico, não só agora, como no futuro também.

Todo mundo sabe da sua formação como maestro. Como isso influência na sua carreira dentro do heavy metal? Seus músicos também precisam ter esse conhecimento? 
Não, basta que um tenha (risos)! Ser maestro, por outro lado, não quer dizer que você tenha só qualidades; acho que você tem defeitos também. No caso, o músico erudito é muito preso às regras, na maior parte das vezes. Eu tive que “desaprender” muito, depois que eu aprendi todas as regras do erudito, pois tem coisas que não são permitidas na música clássica. Isso eu devo aos meus colegas de banda porque eles trazem idéias que de repente não são muito acadêmicas, mas que soam bem e são interessantes. Então, eu acredito que a combinação é a ideal. Se tivesse uma banda só de maestros, pelo amor de Deus, ia ser a coisa mais chata do mundo (risos)!

Você já pensou na possibilidade de se aventurar por outros caminhos, por exemplo, produzindo outras bandas?
Eu não conseguiria me imaginar produzindo meu próprio disco sozinho. Agora, em se falando de outras bandas, outros artistas, aí sim eu acho que teria condições de colaborar, desde que eu tivesse tempo para isso, pois seria até um trabalho interessante. Obviamente, não dispenso um bom engenheiro de som porque cada um tem seus conhecimentos específicos. Acredito que meu conhecimento técnico seja o suficiente para dirigir, talvez não seja o necessário para finalizar. Então, eu acho que sempre que você pensar numa produção tem que pensar numa coisa de time. É o time que faz a coisa ser vencedora, não dá para ficar na mão de uma pessoa só.

André Matos é um dos personagens mais tradicionais do heavy metal brasileiro, então podemos dizer que você é uma lenda?
Não sou eu que posso dizer isso, você pode falar (risos). Olha, qualquer coisa que eu disser nesse sentido, pode soar muito egocêntrico, talvez, então eu realmente não sou a pessoa mais indicada para comentar esse tipo de coisa. A única coisa que eu digo é que eu sempre procurei seguir uma linha daquilo que eu fiz e pretendo continuar seguindo essa mesma linha, ou seja, ter uma integridade cultural, musical, que me faça honrar aquilo que eu me comprometi desde o começo, sem obviamente ficar me repetindo. O mote da minha carreira, na verdade, acho que sempre foi o passo adiante. Se é que alguma coisa caracteriza minha carreira, não é o estilo musical, mas talvez a busca de algo novo e se não novo, pelo menos, original. Então, essa pergunta eu deixo para os leitores responderem…

Você criou um estilo? Isso você afirma?
Não sei! Também é muito difícil julgar isso. Eu sou muito crítico com a minha própria obra; às vezes, me surpreendo com ela, às vezes, destruo completamente tudo o que fiz. Ainda bem que é assim, graças aos virginianos, o mundo é o que é, né (risos)… Nós somos uns chatos.

No seu primeiro disco do Viper, a sua identidade visual era…
(interrompendo) Mini Bruce!

É, ia citar isso (risos)… Naquela época você imaginava ser igual ao Bruce?
Imaginava! Era meu desejo, meu sonho (risos). Claro que quando você começa uma coisa ainda adolescente, você se imagina vivendo aquilo tudo, e muitas vezes não passa de um sonho. Muito me impressionou que uns quinze anos depois eu teria o Bruce cantando junto comigo num palco como meu convidado.

Como é que foi isso para você?
Foi muito emocionante na verdade. O Bruce não foi meu único ídolo na adolescência, mas foi um dos principais, sem duvida nenhuma. E eu lembro que eu disse para ele que tinha visto o show dele, em ‘85, no Rock In Rio, com treze anos e estava no meio do público e tal. Tive que implorar para minha família me levar porque eu não podia ir sozinho. E perguntei a idade que ele tinha na época do show do Rock In Rio, e ele falou: “acho que eu tinha uns 28”, aí eu disse pra ele assim; “pois é, agora eu tenho 28 e você está cantando aqui comigo”, então pra mim, meio que fechou um ciclo na minha vida, considerando a admiração que eu tinha por ele que me incentivou a cantar. E eu dei a sorte de conhecer dois outros grandes ídolos, pessoalmente, que são o Dio e o Rob Halford, e pude falar a mesma coisa para eles. Teve o Eric Adams do Manowar, também… De todos só faltou um que foi o Geof Tate, do Queensrÿche (risos). Não tive a chance ainda de falar com ele.
 
E eles continuam sendo seus ídolos, hoje em dia?
Muito! Eu admiro incansavelmente o trabalho deles, agora ainda mais, que eu os conheço pessoalmente.

Como foi aquela coisa de ter participado da escolha do vocalista do Iron Maiden, quando o Bruce abandonou a banda e tempos depois, escolheram o Blaze Bayley?
Para mim não chegou a ser uma competição já que eu recebi um comunicado da gravadora deles no Brasil dizendo que eles estavam procurando candidatos do mundo inteiro, e eles queriam meu material para mandar para a Inglaterra. Mandaram, passou pela seleção lá e a resposta que tive no fim das contas é que eu fiquei entre os três finalistas. Para ser sincero, nunca viajei muito nessa história; para mim era só interessante do ponto de vista de pensar: “vamos ver aonde eu chego”, isso seria legal. Ter ficado entre os três finalistas foi muito legal. As pessoas podem não acreditar, mas, é muito melhor que eu não tenha sido escolhido porque era uma responsabilidade muito grande; eu era muito novo, tinha apenas 21 anos e não sei como é que eu ia lidar com isso psicologicamente. Além disso, a minha vida teria sido muito diferente do que foi, onde talvez eu não tivesse produzido nem metade do que produzi. Pessoalmente, sou muito mais realizado com as coisas que fiz do que ser o vocalista do Iron Maiden, com toda a responsabilidade que isso acarreta. Vejam o que aconteceu com o Blaze.
 
Você se apresentou algumas vezes com o Viper, com a formação do Theatre Of Fate. Existe a possibilidade de vocês voltarem a fazer mais shows no futuro?
Existe! Shows comemorativos são bem legais e acho que existe essa possibilidade, sim. Outro dia eu encontrei o pessoal do Viper e a gente ficou conversando e lembramos que em 2010 o Viper completa 25 anos do primeiro show, que foi no dia 08 de abril de ’85! Nós estamos com a idéia de talvez fazer uma comemoração disso. Nós nos gostamos, adoramos tocar juntos, é divertido, nos faz lembrar dos velhos tempos, que eram muito bons e acho que tem uma boa parcela do público que acompanhou isso e gostaria de ver. A idéia é um dia conseguir fazer um show completo.

Além desse revival com o Viper, o Angra e Shaman também poderiam ter esse tipo de comemoração?
Acho mais difícil! Principalmente pelo fato de não ter esse vinculo de amizade, como tem com o Viper, que era uma banda em que nós crescemos juntos, éramos amigos de infância, que acabou virando uma banda, e também foi nossa primeira banda. Isso tem um significado muito especial pra gente. Já o Angra e o Shaman foram bandas muito importantes na minha carreira, eu tenho muito orgulho, muito carinho por tudo o que eu fiz, por ter fundado essas duas bandas, mas talvez o saudosismo não seja o mesmo.

Quais são os seus projetos para o futuro? Como estão os preparativos do Virgo?
Existe a possibilidade de gravarmos o segundo disco, mas tudo depende das circunstancias do mercado. Para você viabilizar esse segundo álbum, tem que haver interesse de alguma gravadora, com contrato, e ainda tem que ver o que é prioritário na vida de cada um. É uma coisa que eu não posso decidir por mim mesmo.

O André Matos tem outros projetos? Que outros projetos?
Ah, tem muitas coisas que muitas vezes me passam pela cabeça (pensativo). São coisas até diferentes, mas acho que o momento agora é de estar concentrado na banda solo, estamos lançando um disco, que ainda vai tomar bastante do nosso tempo, com divulgação e turnê. Talvez, o que eu planejo é não deixar passar tanto tempo entre esse disco e o próximo. Estamos embalados, pegamos “gosto” pela composição juntos e não tem porque demorar muito para um próximo. Mas, isso tudo depende de quanto tempo ficaremos na estrada.

Tem alguma coisa que você ainda não realizou e gostaria de fazer?
Deve ter umas dez mil coisas que eu ainda não realizei (risos)! Ainda bem, né, sobra muitas coisas para os anos vindouros e acho que essa coisa de buscar uma identidade é o que qualquer músico busca. O cara que toca piano quer se reconhecido a partir do momento em que ele coloca a mão no piano, o guitarrista pelo som da guitarra, o batera pelas linhas que faz, como é um Nicko Mc Brain (Iron Maiden), por exemplo, o Lars Ulrich (Metallica), que quando toca você sabe que é ele. O som da guitarra do David Gilmour (Pink Floyd) é único, e por aí vai. E voz, acima de tudo é a coisa que mais se caracteriza, então, você ter uma voz que é referência, como é o caso do Dio, Bruce Dickinson, Rob Halford, David Coverdale e tantos outros, é a meta de todo cantor; não basta ser apenas um cantor, um cover, você quer ser você. E o estilo não é só a forma de cantar, acho que estilo tem a ver com a sonoridade também, o timbre. Então, eu fico muito feliz quando alguém fala que reconhece minha voz em qualquer música em que eu cante. Isso para mim é uma vitória, porque durante muitos anos eu tentei ser alguma coisa, até que talvez isso tenha acontecido espontaneamente. Não sei em que momento isso aconteceu, mas é bom saber que aconteceu. Acho que agora uma das buscas é você não frustrar as pessoas, mas ao mesmo tempo você ser audacioso, corajoso e sempre ousar mais, cada vez mais. Sempre digo: ousar com responsabilidade, não inadvertidamente, mas sabendo as conseqüências daquilo que está fazendo. Acho que esse é o grande segredo. E eu não tenho problemas em revelar (risos).

Gostaria de te agradecer pela entrevista e gostaria que você deixasse uma mensagem para quem acessa o site.
Muito obrigado pelo espaço, é sempre um prazer ter essa possibilidade de contar sobre as novidades do André Matos e agradeço o apoio dos fãs que estão sempre ao nosso lado.

Silvia Curado

fonte: http://www.rockonnection.com/?link=nws&cod=259

About Janus

Janus Aureus is my recently-inaugurated personal blog (written in portuguese, but with some texts in english as well). Fiore Rouge is my old (but still very active - in fact, more than Janus :P) blog (I started it back in 2005). Mentalize is a fan-made website (since 2005). if you wish to contact me for any reason, visit my blog and leave a comment OR see email above (top left) - no, my name's not Andre - actually, I'm not even a guy! LOL Long story... O Janus Aureus é meu blog pessoal - escrito em português - ainda sem muito conteúdo, pois foi começado no final de dezembro de 2011. Já o Mentalize foi aberto em 2005 e está escrito em várias línguas *rs* Privilegio o uso do inglês ali porque o pessoal estrangeiro não tem muitas informações sobre o AM. Quem quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, deixe um comentário nos meus blogs ou use o email que está aí em cima à esquerda (e não, eu não sou o Andre - aliás, sou mulher!).

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