Angra – Talento a Serviço do Metal


 
Tudo começou com a demo Reaching Horizons. Lançada em 92, surpreendeu o público pela dose de melodia que colocava no heavy tradicional. Porém, muitos disseram que faltava peso. O CD Angels Cry veio, segundo a crítica, suprir essa falha. André Matos, vocalista e tecladista da banda concorda: "Nós evoluímos muito nesse ano e meio que rolou entre a demo e o CD. Nós aprendemos a soar com mais peso. Isso é requisito básico e quem dá é a precisão da banda. Acredito que funcionou muito bem, graças à gravação do disco". Gravação que contou com a produção de Charlie Bauerfeind, considerada fundamental por André. "Havia muita inexperiência de nossa parte, mas ele conseguiu conduzir tudo muito bem. A gente aprendeu muito sobre como se portar numa situação dessa. Por mais surpreendente que seja, os alemães têm um jogo de cintura muito legal". Esse jogo de cintura aparece nitidamente na faixa Never Understand – a favorita de André, aliás – que traz uma linha melódica de baião bastante nítida em sua harmonia. Como a bateria de Angels Cry foi gravada pelo alemão Alex Holzwarth, do grupo Siegens Even (o batera Marco Antunes saiu da banda às vésperas da gravação), o Angra teve algum trabalho para explicar nosso ritmo nordestino ao gringo. André confessa que a banda teve até que dançar um baião no estúdio para que Alex "pegasse o molejo". O vocalista só se recusa a confessar qual dos músicos botou as mãos na cintura e bateu o pé no chão em pleno solo alemão…
Profissionalismo
 
Para que Angels Cry saísse com as qualidades com que saiu, o trabalho foi imenso. Luís Mariutti, baixista que recusa o título de sex-symbol da banda – apesar de alguns episódios que o fariam merecer tal honraria – confirma a tese na prática: "Teve algumas passagens na gravação em que eu tive até que desenhar para o baterista entender o que eu queria que ele fizesse". O guitarrista Kiko Loureiro vai na mesma linha e confessa o que mais lhe deu trabalho na gravação: "Tive que trampar muito, principalmente para fazer as bases. Esse é um trabalho de peão! (risos) Acontece que as bases devem ser gravadas duas vezes – uma para cada canal – e pelo mesmo guitarrista. Então voce grava o disco inteiro duas vezes".
 
Só que esse trabalho teve a sua compensação. Afinal de contas, André, conhecido e reconhecido perfeccionista, confessa que ficou satisfeito com o resultado final. Mas não entrega assim de graça: "Tem uma hora em que você desiste de tentar achar defeito na coisa…" (risos). Tudo isso apesar dos problemas de última hora – como a saída do baterista Marco Antunes, o que acabou retardando a gravação por 15 dias. Mesmo assim, os quase três meses entre gravação e mixagem acabaram gerando um resultado que o vocalista define como surpreendente. O disco acabou saindo primeiro no Japão pelo desprendimento de uma empresa nipônica. "Eu já era razoavelmente conhecido por lá graças ao disco Theatre of Fate, do Viper. Os japoneses tem uma predileção pelos trabalhos mais melódicos, então a JVC resolveu bancar uma boa parte do projeto e obteve exclusividade para o lançamento no Japão e boa parte da Ásia", diz André. Isso fez com que Angels Cry fosse lançado no outro lado do planeta em novembro passado. Em seguida, pensou-se na Europa, onde o esquema de distribuição independente – em cada região uma gravadora representa a banda – fez com que o disco já esteja em quase todo o continente. Alemanha, França, Escandinávia, Inglaterra, Bélgica, Suiça e Países Baixos já estão devidamente conquistados. André esteve na Europa em maio para divulgar o trabalho da banda. "Foram mais de 50 entrevistas", afirma.
O Choro dos Anjos
Uma das maiores vitórias da banda foi ter o disco finalmente lançado no Brasil. E valeu a pena. André informa que "foi o recorde da Eldorado, com a primeira tiragem de 3 mil cópias esgotada em uma semana". Vale lembrar que, em junho, a bolacha já estava na terceira prensagem. Mas, afinal, por quem os anjos choram? André demora a entregar: "Nós preferimos deixar a interpretação de cada letra por conta do ouvinte. Mas esse tema, em especial, fala da nossa realidade, de um país de terceiro mundo. O choro dos anjos pode muito bem ser o choro de uma criança que passa fome no Brasil. Eu poderia dizer que é a única letra do Angra que tem um certo engajamento". Agora, o negócio é tocar ao vivo. No início de junho, o Angra conseguiu uma das maiores lotações do Aeroanta no show de lançamento de Angels Cry: foram quase 1.400 pessoas abarrotando o local.
 
Só que dá muito trabalho reproduzir ao vivo toda a massa sonora que o Angra colocou em disco. Começando pela voz. Para interpretar ao vivo os vocais dobrados que André colocou no disco, todos os músicos do Angra, à exceção de Luís, fazem backing-vocals ao vivo. Além disso, o tecladista Leck Filho (ex-Extravaganza) participa dos shows para interpretar as inúmeras passagens de teclados gravadas por André. "Chegamos a pensar em colocar teclados pré-gravados em fita, mais isso deixaria a apresentação muito mecânica", conta o vocalista. Tudo isso, mais as passagens de violão de cordas de nylon nos shows, significa muito mais trabalho no palco. Os roadies devem estar permanentemente atentos e nada pode falhar. Felizmente para a banda, o equipamento do Angra é de primeira, como manda o perfeccionismo. A idéia, agora, é tocar muito. A agenda já está lotada até o final de agosto e depois o quinteto parte para incursões pelo nordeste do Brasil e pela Argentina. Mas nada de mega-shows. "Não adianta colocar 500 pessoas onde cabem 3 mil", diz o vocalista. "Eu acho que a gente tem que lutar contra esse tipo de ganância, contra esse tipo de prepotência. Tudo deve chegar no seu devido tempo – isso, se chegar. É um lance de ir crescendo aos poucos".
 
Tudo no Angra significa trabalho. Todos estudam música – André está se formando em regência, composição e piano clássico – e a história do grupo, por si só, encerra em si um trampo sem tamanho. Começa pela troca de bateristas. Com a saída de Marco Antunes, o alemão Alex acabou gravando o disco. Depois, todos de volta do Brasil, Ricardo Confessori (ex-Garcia & Garcia e Korzus) acabou se incorporando ao grupo. Isso significou trabalho para quem? Para todos, naturalmente, mas sobretudo para o baixista Luís, que teve que se adaptar a três bateristas em menos de seis meses: "Felizmente, agora está legal", alivia-se ele. "O Confessori é o batera com quem me identifico de fato. Mas nem por isso deu menos trabalho: foram cinco meses para colocar todas as músicas no jeito com ele". O batera não nega: "Tem muito trampo nisso tudo. Estudei pra caramba pra entrar no Korzus, pra chegar naquele pique deles. Agora, acredito que me encontrei no Angra. Já estamos até compondo novas músicas".
 
(Antonio Carlos Monteiro)
 
– matéria de 1994 da revista Rock Brigade –
 

About Janus

Janus Aureus is my recently-inaugurated personal blog (written in portuguese, but with some texts in english as well). Fiore Rouge is my old (but still very active - in fact, more than Janus :P) blog (I started it back in 2005). Mentalize is a fan-made website (since 2005). if you wish to contact me for any reason, visit my blog and leave a comment OR see email above (top left) - no, my name's not Andre - actually, I'm not even a guy! LOL Long story... O Janus Aureus é meu blog pessoal - escrito em português - ainda sem muito conteúdo, pois foi começado no final de dezembro de 2011. Já o Mentalize foi aberto em 2005 e está escrito em várias línguas *rs* Privilegio o uso do inglês ali porque o pessoal estrangeiro não tem muitas informações sobre o AM. Quem quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, deixe um comentário nos meus blogs ou use o email que está aí em cima à esquerda (e não, eu não sou o Andre - aliás, sou mulher!).

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