Entrevista Andre Matos a Top Rock em outubro de 1994


Esta entrevista concedida a revista Top Rock em outubro de 1994 quando o Andre Matos e o AngrA promoviam o album Angels Cry. Apesar de longa, vale a pena conferir…

Introdução:

Andre Matos, 23, encontrou a reportagem da Top Rock saído da última aula do dia. Tarde
não-ensolarada na capital finaceira do Brasil. Na faculdade de paredes brancas, o pupilo
passou quase um quarto da vida estudando. Deixou o vestibular e o Viper para tráz; faz seu
sexto e último ano. Contrariando expectativas – a pedidos? – retorna o caminho do rock
cantando com o AngrA. Está aí um quinteto disciplinado. Que já fala em prôximo disco. Que
gravou o primeiro na Alemanha unificada.
Os caras são petizes no mercado fonográfico e fazem heavy e não MPB…
O segredo do AngrA é o método. O vocalista assim transpira. As letras são em inglês (não
espere a inteligência do iron Maiden, aulas de história e mitologia).
A sonoridade, onde os meninos mandam, é de rachar o speaker do menos crédulo.
O apetite é para tempero profissional. O heavy melôdico vem como pano de fundo para
incursão jazzistíca, temas eruditos, e o escambau fruto do imaginário ambicioso destes
músicos. Quem são, os porquês, aonde querem chegar você vai saber nos principais trechos
desta entrevista, concedida pelo porta-voz de palco do conjunto, o franco Andre.

 
A Faculdade dá 3 opções: Só regência, só composição e os dois juntos?
"É um instrumento. Ou canto, no caso. Fiz três anos de curso de piano clássico. Tenho um ano pendende e vou acabar no que vem. Pode-se optar por Composição e regência juntos, agregando horários. Fiz isso porque acredito que um interfira diretamente no outro, para ter formação completa. Não estaria satisfeito com apenas Composição, ou regência. O curso de Composição te faz um regênte melhor e vice-versa".

Como Surgiu a oportunidade para gravar na Alemanha?
"Através do alemão Limb Schnoor, ex. empresário do Viper. (TREATRE OF FATE saiu na Alemanhae Japão.) Ele conhecia meu trabalho. Contribuiu o fato do som do AngrA ser um desenvolvimento do que fazia o Viper antes. REACHING HORIZONS foi o cartão de visitas. Fechamos contrato – nosso primeiro – com a JVC japonesa. Com a grana do advance investimos na gravação de ANGELS CRY. Por que na Alemanha? Porque no Japão é caro e no Brasil, também. Gastaríamos mais para obter aqui estúdio no nível do alemão, para trazer produtores e equipamento de lá, considerando passagens e estadia. Tem bons estúdios aqui. E mais caros. Foi barato gravar na Europa, tudo a mão. O Limb conhece todo mundo."

Vocês trabalharam com Charlei Bauerfeind e Sascha Paeth?
"Charlei produziu o EVOLUTION do Viper. A dupla já trabalhou com muita gente. São os produtores mais expoentes da Alemanha hoje. O Sascha é guitarrista do Heavens Gate. Foi peça fundamental na produção de ANGEL CRY. Enquanto um acompanhava a gravação, o outro descansava. Modificaram muita coisa. Isto tem que ser dito. Irritava-nos o fato de mexerem na nossa música. Deixamos o sentimentalismo de lado para tentar enxergar coerência no que diziam. Hoje estou satisfeito com as mudanças; e preparado para gravar o segundo disco. Sei que mexem mesmo, produtor é isso. Tem um limite, o respeito do cara pela tua criação".

 
Quanto tempo ficaram na Alemanha?
"Fiquei três meses, da pré-produção até a mixagem. Gravamos de junhi a setembro de 93. Em maio deste ano voltei à Europa só para divulgação. Aproveitei para remixar três músicas prum single. Refiz o vocal de "Evil Warning". Foi idéia da gravadora japonesa, que age assim para não deixar o mercado esfriar enquanto o disco novo não vem."

O mercado japonês absorve tudo. Achar que por ter ido bem no Japão o AngrA dará certo não é perigoso?
"O repóter da francesa HARD me fez a mesma pergunta: o Japão é chamado pelo europeude cemitério dos grandes monstros. Sabemos que sucesso lá não pode ser referência, mas é currículo e também proporciona nossa carreira. Conseguimos um advance para gravar o disco e ele foi bem sucedido, temos certeza que vai dar para gravar o prôximo. Se não fizermos mudanças radicais no estilo da banda, seremos sempre bem aceitos no Japão. As portas se abriram. Há bandas que cantam em português e só fazem sucesso aqui. Somos uma banda que – por enquanto – só faz sucesso no japão, mesmo sem cantar em japonês." (RISOS)

Sobre Europa, Brasil e EUA?
"Europa é um desafio. A música que fazemos está em alta lá. Pegue fenômenos isolads, como Manowar, tremendo sucesso na Alemanha, deuses. Encontrando nosso nicho de mercado, tudo bem. De repente o francês me diz que a expectativa dele era vender 3 mil cópias do nosso disco. Eu pergunto: só isso?! Ele falou que 3 mil estava bom, ‘cobre o investimento e dá lucro’. Não somos o Guns N’ Roses, nem queremos. Não almejo o megaestrelato. É importante não passar sem sernotado. Consumidor europeu é exigente, ao contrário do americano."

 
Quanto ao mercado americano?
"Nem pensar. Este, sim, é o mercado específico. É preciso estar numa gravadora grande, um p. esquema de divulgaçãoi, ter investimento de milhões de dólares; para poder respirar e sonhar em aparecer. Tudo lá é instantâneo. Eles querem consumir. O Japão é diferente. Consomem de tudo um pouco, mas são fiéis. O americano é suscetível à moda. Quero segurança para continuar trabalhando.

E aqui?
"O Brasil é curioso. Não esperávamos que a resposta fosse ser maior que da prôpria Europa. Lembro como na êpoca do Viper o som era underground. Ainda é. Só que percebo um crossover. Era uma tribo, com tribos dentro dela. Era thrash, o heavy melôdico (que hoje está se popularizando). Vejo que a garotada gosta desse som. A m´sica muito pesada, o thrash, o death, que eu não vou tachar de ruim, saturaram. Mas sempre há períodos de alternância. Veio a NWOBHM; o thrash… O fenômeno do Dream Theater foi impressionante. A banda é elaboradíssima e todo mundo gosta. Vendeu mais de 1 milhão de cópias no mundo."

AngrA é um nome da mitologia indígena brasileira?
"Sim. Mas não tupi-guarani. Não sei em qual língua. Descobrimos a coisa da mitologia depois de dar nome à banda. Alguém pesquisou e nos disse que AngrA quer dizer "deusa do fogo". Queríamos um nome brasileiro. Já temos que cantar numa língua que todos entendam. Acho que a sonoridade do inglês se casa bem com o rock, não me arriscaria cantar rock em português. Mas gostaria de cantar outra coisa, pô, é minha língua. Às vezes temos dificuldade para compor (as letras). Tem palavras cuja sonoridade está prôxima da da palavra ‘angra’ em outros idiomas."

 
Monster of Rock
"Começamos pelo lado ruim. Num evento assim, claro, as bandas nacionais saem prejudicadas, principalmente a que abre – a cobaia. Não culpo ninguém. Estávamos preparados. Levamos nosso técnico para operar a mesa de som, mas ele não estava sozinho alí. A permissão para usar o equipamento que não nos pertence, mesa de som e periféricos, onde a coisa realmente acontece, é concessão que bandas de fora fazem ás nacionais. Normalmente é assim.
Valeu ter participado. Também não passamos o som direito. Faltou tempo. A galera agitou, apesar do que falaram os grandes jornais. Cantávam junto, batiam palmas. Nunca tinha tocado num festival. É uma emoção. Tinha muita gente. O mesmo palco dos monstros."

Você e o Rafael montaram o AngrA há 3 anos?
"Pertencem a formação original, o Luis, o Rafael e eu. A idéia partiu de mim e do Rafael pois estudávamos juntos: fazer uma banda de rock. Passei um ano só estudando, tinha deixado o Viper. Saí em 90. Em 91 formamos o AngrA."

Por que você saiu do Viper?
"Divergências musical. Nada pessoal. Não houve briga, quebra-pau. Eu estava começando a viajar na música clássica e eles escutando Anthrax(risos). Não é pejorativo. eles naturalmente tomariam um outro rumo. As músicas novas que pensavam em fazer já eram diferentes."

Nada no estilo inicial de Iron e Helloween?
"Tampouco mais orquestral, ou clâssico, como tentamos fazer em THEATRE OF FATE. No AngrA, hoje, tenho liberdade de colocar aquilo que me satisfaz"

 
Os outros também têm formação musical sólida?
"Todos estudam, fora o Ricardo, o baterista, que não tem conhecimento harmônico e melôdico profundo, mas lê um pouco de música e já tocou trompete. Voltando ao Viper: senti que a gravação do TREATRE fora conflituosa, no sentido de encaixar meu estilo ao deles. Comecei a me desencantar. Além de estar fazendo a faculdade e querer mais tempo para dedicar a ela. No Viper não me desenvolveria como música, achei. Eles começaram a sentir a cobrança do púplico e a coisa reverteu-se contra mim. adotaram uma postura negativa, falavam mal de mim, me acusaram de coisas mentirosas. Pura defesa deles. A situação está melhor hoje. a poeira baixou. nem mesmo eles querem brigar mais. Estão cuidando de suas carreiras. Fiquei chateado numa determinada época porque éramos todos amigos. Sei que fui individualista saindo. Mas precisava. Gostaria de ser amigo deles, a gente viveu muita coisa juntos."

Quando entrou o Ricardo na bateria?
"Tinhamos outro batera, o Marco, que não chegou a gravar o disco. Viajamos para a Alemanha e ele teve problemas com o produtor. Contramos um baterista alemão, o Alex Holzwarth, que toca numa banda de rock progressivo, a Sueges Even. Ele é um p. batera, pegou tudo em uma semana. O Marco se desligou da banda praticamente na hora da gravação. Voltamos ao Brasil e contramos o Ricardo, que na época saía do Korzus."

Como você encara o assédio dos fãs, o desrespeito à sua privacidade?
"A coisa não chegou num nível exagerado. Posso andar na rua traquilo. Pouca gente me conhece graças a deus. Já passei por experiência de maior assédio. Acho um pouco doente. A pessoa que assedia o ídolo assim tem um alto grau de carência, de insegurança. Na verdade está querendo se identificar com ele."

 
Mas as pessoas da TV estão envolvidas por uma aura que fascina o cidadão anônimo. Você, Cid Moreira ou Paulo Francis fazendo comentários para a Globo…
"Claro. Um dia ví a Malu Mader de perto e… (risos, gostou dela.)
Existe a questão estética – Paulo francis não entra neste quesito – pessoas de beleza superior a média. Surge um estigma mágico: alguém especial, num lugar especial, onde as pessoas "normais" não estão. Olho para a Malu Mader e vejo que ela ´normal. Baixinha até. Mas enfrenta as câmeras, decora texto, conhece o Tarcício meira. (risos)
Acabamos decepcionados quando encontramos certas pessoas que não correspondem à expectativa. Teve gente que nos viu e ficou abobada. Minha vaidade é por outro lado.
Mas estou sendo caprichoso: isso são ossos do ofício, me esforço para atender bem aquele que me encontra. É grande o esforço do fã ao te procurar. Sou tímido nesse sentido. Por mais que admire não-sei-quem, vejo uma barreira em chegar e dizer ‘gosto dos eu trabalho’. Admiro quem o faz."

Hora de falar em influência e gosto pessoal, Andre.
"Gosto de música clássica em geral. Estudando eu escutei compositores desconhecidos – maravilhosos. Fez-se a ligação total, de compositores famosos e não. Uma coisa veio da outra, inclusive o prôprio rock."

Erudito e clássico é a mesma coisa?
"Falamos ‘clássico’ para generalizar. Clássico é um pe´riodo da história da música, bem como das artes plásticas. ( Há os períodos Renascentista, Barroco, Clássico, Romântico, Moderno e contenporâneo.) Dizer ‘erudito’ parece esnobe. Sou fanático por Beethoven, Bach, Mozart, Chopin, Tchaikovsky e por compositores do século XX, como Frances Poulenc, francês, morto em 63. Tenho muito da obra dele. Estou me familiarizando com jazz ultimamente, por influência do Kiko, que é guitarrista de jazz nato."

 
Falando em jazz, e Zappa?
"Ele tinha um conceito profundo de música. Era estudado. Sabia o que fazer. nada superficial: não era o Itamar Assumpção. É o Frank Zappa e sabia tudo. De repente enfiava um tema da renascença lá… Sabia elaborar. Fenomenal.
Gosto também de MPB, de música regionalista: Alceu Valença, Djavan, Chico, Milton, Caetano, Jobim, João Gilberto. Entre as cantoras a Elis foi a melhor. A Marisa Monte não me agrada, não sei por que, não vou com a voz dela. Canta bem, só não me convence."

E o rock?
"Comecei a estudar música clássica com 11 anos. Rock eu escutava com 12. meu primeiro disco foi um do Van Halen. O Kiss veio para o Brasil, virei ‘metaleiro’ mesmo. Era a época da galeria, quando a Woodstock ainda era noutro prédio. Dio, Iron, Accept, Manowar, Judas Priest – era 84,85. Minha mãe me levou ao ROCK IN RIO I. Eu tinha 13 e era muito fã do Iron Maiden. Foi o melhor show da minha vida. Ví Whitesnake e Queen. Mas era tão fã do Iron que nem dei bola pro Queen direito. Gosto de pop também: do Peter Gabriel, da Kate Bush: por incrível que pareça, gosto de A-HA. O Morten tem uma das vozes mais bonitas que existe… A trilha de 007… A-HA é uma influência."

Rolling Stones e Beatles?
"Prefiro Beatles. Stones é rebeldia, mais blues. Sorte dos Beatles porque eles acabaram. Acho que os Stones não deveriam mais estar juntos. Mas quem sou eu para dizer uma coisa dessas!? Desgosto da produção atual deles, prefiro a carreira solo de Jagger."

 
Voltar pro rock tem relação com o desincentivo à música clássica no Brasil?
"Se quisesse continuar a carreira na música clássica – e houve uma época em que me dediquei 8 horas ao piano – estaria acertando as coisas para ir pra fora. Se quiser ser músico erudito é lá fora. Não foi isso que mais me desanimou. O músico clássico é voltado só pra isso. E quem provou do outro lado não consegue esquecer. O cara passa a vida tocando piano e acostuma-se, não sabe o que é pisar no palco nem o que é vibração da platéia, porque tudo é muito formal. Ele entra, senta, toca, todos em silêncio; no final aplaudem."

Fonte: Revista Top Rock, ed. 27.
Outubro de 1994.
Entrevista conduzida por Ana Delucca Mano

About Janus

Janus Aureus is my recently-inaugurated personal blog (written in portuguese, but with some texts in english as well). Fiore Rouge is my old (but still very active - in fact, more than Janus :P) blog (I started it back in 2005). Mentalize is a fan-made website (since 2005). if you wish to contact me for any reason, visit my blog and leave a comment OR see email above (top left) - no, my name's not Andre - actually, I'm not even a guy! LOL Long story... O Janus Aureus é meu blog pessoal - escrito em português - ainda sem muito conteúdo, pois foi começado no final de dezembro de 2011. Já o Mentalize foi aberto em 2005 e está escrito em várias línguas *rs* Privilegio o uso do inglês ali porque o pessoal estrangeiro não tem muitas informações sobre o AM. Quem quiser entrar em contato comigo por qualquer motivo, deixe um comentário nos meus blogs ou use o email que está aí em cima à esquerda (e não, eu não sou o Andre - aliás, sou mulher!).

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